A espasticidade que não pede licença
O espasmo muscular na esclerose múltipla não tem hora marcada. Ele aparece quando você está tentando dormir, quando está se levantando da cadeira, quando está simplesmente parado. E os medicamentos que existem para controlá-lo — baclofeno, tizanidina — funcionam para parte dos pacientes, mas trazem um custo que quem tem EM não pode ignorar: sedação que compromete exatamente a cognição que a doença já ameaça.
Existe uma alternativa aprovada em mais de 30 países — Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, Canadá — especificamente para espasticidade na esclerose múltipla que não respondeu a outros tratamentos.
Não é uma alternativa experimental. É o nível mais alto de evidência que um derivado de cannabis pode ter: aprovação regulatória formal, após revisão rigorosa de ensaios clínicos randomizados, em múltiplos sistemas de saúde de primeiro mundo.
Por que a espasticidade na EM é tão debilitante — e por que os tratamentos convencionais têm limites
A esclerose múltipla (EM) é uma doença autoimune crônica do sistema nervoso central. O sistema imune ataca a mielina — a bainha protetora que envolve os axônios neuronais e é responsável pela transmissão rápida e eficiente dos sinais elétricos.
Sem mielina, os sinais nervosos são transmitidos de forma lenta, distorcida ou simplesmente não chegam ao destino. O resultado é uma constelação de sintomas que varia de paciente para paciente: fraqueza muscular, espasmos, distúrbios de sensibilidade, fadiga, problemas de visão, dificuldades cognitivas e de equilíbrio.
A espasticidade — rigidez muscular intensa, espasmos involuntários dolorosos, contrações que ocorrem sem aviso — está presente em até 80% dos pacientes com EM ao longo da evolução da doença. É um dos sintomas que mais compromete a qualidade de vida, a independência e o sono.
O tratamento convencional inclui baclofeno, tizanidina e benzodiazepínicos. Esses medicamentos funcionam para parte dos pacientes, mas têm limitações: sedação excessiva, perda de eficácia com o tempo, e em doses suficientes para controlar a espasticidade, frequentemente prejudicam as funções cognitivas que os pacientes com EM já precisam proteger.
O mecanismo que explica por que os canabinoides reduzem espasmos onde o baclofeno falha
Para entender o mecanismo dos canabinoides na espasticidade, é preciso entender onde o problema ocorre.
A espasticidade na EM é causada pela perda do controle descendente sobre os neurônios motores espinais — ou seja, o cérebro perde parcialmente a capacidade de modular a contração muscular porque os sinais descendentes são comprometidos pela desmielinização.
Os receptores CB1 estão distribuídos ao longo das vias motoras — nos gânglios da base, no cerebelo, na medula espinal — em posições estratégicas para modular a excitabilidade dos circuitos que controlam o tônus muscular.
Quando o THC ou os endocanabinoides ativam esses receptores CB1 pré-sinápticos, eles reduzem a liberação de neurotransmissores excitatórios (principalmente glutamato) nas sinapses dos circuitos motores espinais. O resultado é uma redução da hiperexcitabilidade muscular — menos espasmos, menor rigidez, movimento mais fluido.
O CBD contribui por vias complementares: seus efeitos anti-inflamatórios e neuroprotetores podem reduzir o processo inflamatório que, nos surtos de EM, acelera a desmielinização e o dano neurológico.
Os estudos que convenceram 30 países a aprovar o spray de cannabis para EM
A base de evidências para cannabis medicinal na EM é robusta — especialmente para espasticidade.
Estudo CAMS (2003): Ensaio clínico randomizado com 667 pacientes com EM. Embora as medidas objetivas de espasticidade não tenham mostrado diferença estatisticamente significativa versus placebo, as medidas subjetivas — a percepção dos pacientes sobre seus próprios espasmos — mostraram melhora significativa. Isso importa: são os pacientes que vivem com os espasmos, e a percepção de melhora impacta diretamente qualidade de vida e funcionalidade.
Estudos com nabiximols (Sativex): Múltiplos ensaios randomizados controlados com o spray THC:CBD demonstraram:
- Redução da espasticidade em escala numérica de 0-10
- Redução da frequência de espasmos dolorosos
- Melhora da qualidade do sono
- Melhora do padrão de marcha em alguns pacientes
- Perfil de tolerabilidade favorável em comparação com altas doses de baclofeno
Metanálise (Whiting et al., JAMA 2015): A mais abrangente revisão sistemática sobre cannabis medicinal identificou evidência moderada-alta para redução de espasticidade em EM — um dos melhores perfis de evidência entre todas as condições estudadas.
Dor neuropática, fadiga e bexiga neurogênica: o que mais melhora além dos espasmos
Dor neuropática: Um dos mais prevalentes e debilitantes na EM — sensação de queimação, choque elétrico, formigamento persistente. Os canabinoides demonstram eficácia para dor neuropática central de forma consistente.
Distúrbios do sono: A combinação de dor, espasmos noturnos e o impacto neurológico direto da EM no sono cria insônia crônica em grande parte dos pacientes. Protocolos noturnos com THC e CBD demonstram melhora do sono sem os riscos de dependência dos benzodiazepínicos.
Fadiga: Presente em mais de 90% dos pacientes com EM, a fadiga é o sintoma mais frequentemente relatado como o mais incapacitante. Estudos observacionais mostram que pacientes em uso de cannabis medicinal relatam melhora de fadiga — possivelmente mediada pela melhora do sono e pela redução da dor.
Bexiga neurogênica: A urgência e incontinência urinária associadas à EM têm receptores CB1 e CB2 no trato urinário, e estudos com nabiximols mostraram redução de episódios de incontinência. Uma área menos discutida, mas clinicamente muito relevante para a qualidade de vida dos pacientes.
Como acessar o equivalente ao Sativex no Brasil sem importação
O nabiximols (Sativex) não tem registro formal na ANVISA para comercialização no Brasil. Isso não impede seu acesso — mas exige o processo de importação via autorização especial da ANVISA para uso individual, mediante prescrição médica.
A alternativa — e muitas vezes a mais acessível — é o uso de extratos de espectro completo com proporção semelhante de THC e CBD (1:1 ou próximo), prescritos por médico e obtidos via farmácia magistral ou importador autorizado.
Os resultados clínicos com essas formulações magistrais são equivalentes ao reportado com nabiximols nos estudos — o que reforça que é o perfil da combinação de canabinoides que importa, não necessariamente a marca registrada.
O que esperar do tratamento
A resposta à cannabis medicinal na EM é dose-dependente e individual. Alguns padrões são consistentes:
Espasticidade: Melhora perceptível geralmente nas primeiras 2-4 semanas, com otimização ao longo de 4-8 semanas de titulação adequada.
Sono: Frequentemente o primeiro benefício percebido — nas primeiras semanas de uso noturno.
Dor neuropática: Resposta mais gradual, tipicamente consolidada entre 4-8 semanas.
Fadiga: Resposta variável — alguns pacientes relatam melhora significativa, outros moderada. Tende a melhorar proporcionalmente à melhora do sono e da dor.
O tratamento não interrompe a progressão da EM — para isso, os medicamentos modificadores de doença (interferons, natalizumabe, ocrelizumabe) são insubstituíveis. A cannabis medicinal atua no controle de sintomas, na qualidade de vida e, possivelmente, na neuroproteção — sem substituir o tratamento de base.
Leia também: Cannabis e neuroplasticidade · O sistema endocanabinoide nas vias motoras · Interações com medicamentos para EM
Dúvidas frequentes antes de agendar
Isso é legal no Brasil? Sim. A ANVISA regulamentou a prescrição de cannabis medicinal pela RDC 327/2019. Médicos habilitados prescrevem com total respaldo legal, e os produtos chegam via farmácia magistral ou importação autorizada pela própria ANVISA.
O tratamento vai me deixar alterado ou "chapado"? Não — quando feito corretamente. Protocolos terapêuticos usam doses precisamente tituladas, muito abaixo das que causam efeito psicoativo. A grande maioria dos pacientes mantém plena capacidade para trabalhar, dirigir e realizar suas atividades normais.
Preciso de encaminhamento do meu médico atual? Não é necessário. Qualquer médico habilitado pode prescrever após avaliação. A consulta na Universo AnandaMed é completa, online e atende pacientes em todo o Brasil.
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Este artigo tem caráter educativo e informativo. Não substitui avaliação médica ou neurológica. Todas as prescrições na Universo AnandaMed seguem regulamentação ANVISA/CFM vigente.
Referências científicas:
- Whiting PF, et al. Cannabinoids for Medical Use: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA. 2015.
- Zajicek J, et al. Cannabinoids for treatment of spasticity and other symptoms related to multiple sclerosis (CAMS study). Lancet. 2003.
- Collin C, et al. A double-blind, randomized, placebo-controlled, parallel-group study of Sativex, in subjects with symptoms of spasticity due to multiple sclerosis. Neurol Res. 2010.
- Rog DJ, et al. Randomized, controlled trial of cannabis-based medicine in central pain in multiple sclerosis. Neurology. 2005.


