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Neurologia7 min de leitura

CBD e epilepsia: a condição com maior evidência científica para cannabis medicinal

O canabidiol é o único derivado de cannabis aprovado pelo FDA para epilepsia refratária. Mas o que isso significa na prática? Entenda os mecanismos, os tipos de epilepsia mais estudados, o que esperar do tratamento e como funciona no Brasil.

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Universo AnandaMed
26 de maio de 2026
CBD e epilepsia: a condição com maior evidência científica para cannabis medicinal
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A história que mudou tudo

Em 2014, uma família paranaense entrou na Justiça com um pedido incomum: autorização para importar um óleo rico em CBD dos Estados Unidos para tratar as convulsões incontroláveis de Anny Fisher, então com 8 anos.

A liminar foi concedida. As convulsões reduziram drasticamente. O caso tomou proporção nacional, mobilizou pesquisadores, médicos e a própria ANVISA — e inaugurou o processo de regulamentação da cannabis medicinal no Brasil.

O que o caso de Anny demonstrou não era novidade para a ciência. Era novidade para o sistema de saúde, para as famílias e para a opinião pública.


Por que a epilepsia tem o maior nível de evidência

Entre todas as condições tratadas com cannabis medicinal, a epilepsia refratária é a que possui o nível de evidência mais alto. Não por acaso — é também a condição que mais mobilizou pesquisa sistemática nas últimas duas décadas.

O ponto culminante dessa trajetória foi a aprovação, pelo FDA americano, do Epidiolex — uma formulação farmacêutica de CBD de alta pureza — em 2018. Essa foi a primeira vez que um derivado de cannabis recebeu aprovação formal de uma agência regulatória de primeiro mundo para uso medicinal.

A aprovação foi específica para dois tipos de epilepsia:

Síndrome de Dravet: Epilepsia geneticamente determinada, de início na infância, caracterizada por convulsões prolongadas e frequentes que respondem pouco ou nada aos anticonvulsivantes convencionais. O ensaio clínico que embasou a aprovação mostrou redução de 39% na frequência de convulsões com CBD, versus 13% no grupo placebo.

Síndrome de Lennox-Gastaut: Epilepsia grave com múltiplos tipos de crises, retardo do desenvolvimento e resistência a tratamentos. Os estudos mostraram redução de 37-42% nas crises de queda — as mais incapacitantes e perigosas dessa síndrome.

Além dessas duas síndromes, o CBD demonstra benefícios em outros tipos de epilepsia refratária, incluindo o complexo de esclerose tuberosa — outra indicação aprovada pelo FDA.


Os múltiplos mecanismos pelos quais o CBD reduz crises — sem causar sedação

A epilepsia é, em essência, um problema de excitabilidade neuronal excessiva — neurônios disparando de forma sincronizada e descontrolada, produzindo as crises.

O CBD atua sobre esse problema por múltiplos mecanismos — o que o torna diferente dos anticonvulsivantes convencionais, que geralmente agem em apenas uma via:

Modulação GABAérgica: O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do cérebro — ele "acalma" os neurônios. O CBD potencializa a ação do GABA de forma indireta, aumentando o freio inibitório sobre a hiperexcitabilidade.

Bloqueio de canais iônicos: O CBD modula canais de sódio e potássio nas membranas neuronais, reduzindo a velocidade com que os neurônios disparam e se propagam sinais excitatórios.

Inibição da GPR55: Este receptor, quando ativado, facilita convulsões. O CBD é um antagonista da GPR55 — ou seja, bloqueia esse facilitador de crises.

Modulação do cálcio intracelular: Altas concentrações de cálcio dentro dos neurônios são parte do mecanismo de morte celular durante crises prolongadas. O CBD reduz esse influxo de cálcio, oferecendo neuroproteção adicional.

A combinação desses mecanismos distintos explica por que o CBD funciona em casos onde múltiplos anticonvulsivantes falharam — ele não está "tentando mais do mesmo", está agindo por caminhos diferentes.


Interação com anticonvulsivantes: o que monitorar

Um aspecto clinicamente crítico do uso de CBD na epilepsia é a interação com outros anticonvulsivantes — especialmente o clobazam.

O CBD inibe a enzima hepática que metaboliza o clobazam, fazendo com que os níveis desse medicamento no sangue aumentem. Na prática, isso pode significar:

Efeito positivo: potencialização do efeito anticonvulsivante — pacientes podem precisar de menos clobazam para o mesmo controle de crises.

Efeito negativo se não monitorado: sedação excessiva, tontura e ataxia — que podem ser confundidos com piora neurológica se o médico não estiver atento.

A solução é monitoramento regular dos níveis plasmáticos e ajuste gradual das doses do anticonvulsivante em paralelo à titulação do CBD.

O ácido valproico também merece atenção: a combinação com CBD pode elevar enzimas hepáticas (TGO/TGP), exigindo monitoramento laboratorial periódico.


E o THC? O papel na epilepsia

Na maioria dos protocolos para epilepsia, especialmente pediátrica, o foco é no CBD com THC mínimo ou zero.

A razão é que o THC pode ter efeitos paradoxais no limiar convulsivante — dependendo da dose e do perfil genético do paciente, pode tanto reduzir quanto aumentar a susceptibilidade a crises. Para populações com cérebros em desenvolvimento ou com alta sensibilidade, o risco não compensa sem indicação específica.

Em adultos com epilepsia refratária, alguns estudos sugerem que traços de THC (proporções 50:1 ou superiores de CBD:THC) podem contribuir para o efeito anticonvulsivante via efeito entourage — sem produzir efeitos psicoativos significativos. Mas essa decisão é sempre individualizada.


Como funciona no Brasil: o acesso ao CBD para epilepsia

A ANVISA permite a prescrição de produtos à base de CBD para epilepsia por qualquer médico registrado no CFM — neurologistas, pediatras, clínicos gerais com conhecimento na área.

O fluxo mais comum para famílias brasileiras:

  1. Diagnóstico confirmado de epilepsia refratária (geralmente após falha de dois ou mais anticonvulsivantes adequadamente dosados)
  2. Consulta com médico especializado em cannabis medicinal — para avaliação das interações com os anticonvulsivantes em uso e definição do protocolo
  3. Prescrição — receita de controle especial (branca, duas vias) para produtos com THC ≤0,2%
  4. Aquisição em farmácia magistral ou importador autorizado pela ANVISA
  5. Acompanhamento — reavaliação nas primeiras semanas para ajuste de dose e monitoramento de interações

O acompanhamento médico não termina na prescrição. A titulação do CBD em pacientes em uso de múltiplos anticonvulsivantes exige atenção contínua.


O que esperar — e o que não esperar

O que é realista esperar:

  • Redução da frequência de crises (em estudos clínicos, média de 30-50% de redução)
  • Redução da duração e da intensidade das crises que ainda ocorrem
  • Melhora do sono e do comportamento entre as crises
  • Possível redução gradual de outros anticonvulsivantes (sob supervisão)

O que não é garantido:

  • Ausência completa de crises ("seizure freedom") — ocorre em uma minoria dos pacientes, mas não na maioria
  • Resposta imediata — a titulação adequada pode levar semanas ou meses
  • Funcionamento igual para todos os tipos de epilepsia — as evidências são mais sólidas para Dravet e Lennox-Gastaut

A honestidade nessa comunicação é parte do cuidado. Famílias que chegam com expectativas realistas colaboram melhor com o processo e identificam benefícios que famílias com expectativas mágicas não conseguem ver.

Leia também: O sistema endocanabinoide e o cérebro · A dose certa: protocolo individualizado · Interações com anticonvulsivantes


Dúvidas frequentes antes de agendar

Isso é legal no Brasil? Sim. A ANVISA regulamentou a prescrição de cannabis medicinal pela RDC 327/2019. Médicos habilitados prescrevem com total respaldo legal, e os produtos chegam via farmácia magistral ou importação autorizada pela própria ANVISA.

O tratamento vai me deixar alterado ou "chapado"? Não — quando feito corretamente. Protocolos terapêuticos usam doses precisamente tituladas, muito abaixo das que causam efeito psicoativo. A grande maioria dos pacientes mantém plena capacidade para trabalhar, dirigir e realizar suas atividades normais.

Preciso de encaminhamento do meu médico atual? Não é necessário. Qualquer médico habilitado pode prescrever após avaliação. A consulta na Universo AnandaMed é completa, online e atende pacientes em todo o Brasil.

Quero explorar o CBD para reduzir as crises — consultar um especialista em epilepsia →


Este artigo tem caráter educativo e informativo. Não substitui avaliação neurológica. Todas as prescrições na Universo AnandaMed seguem regulamentação ANVISA/CFM vigente.

Referências científicas:

  1. Devinsky O, et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017.
  2. Thiele EA, et al. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome. Lancet. 2018.
  3. Gaston TE, et al. Interactions between cannabidiol and commonly used antiepileptic drugs. Epilepsia. 2017.
  4. ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC Nº 327/2019.
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Escrito por
Universo AnandaMed

Médico especialista da Universo AnandaMed. Artigos baseados em evidências científicas e experiência clínica.

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