A história que mudou tudo
Em 2014, uma família paranaense entrou na Justiça com um pedido incomum: autorização para importar um óleo rico em CBD dos Estados Unidos para tratar as convulsões incontroláveis de Anny Fisher, então com 8 anos.
A liminar foi concedida. As convulsões reduziram drasticamente. O caso tomou proporção nacional, mobilizou pesquisadores, médicos e a própria ANVISA — e inaugurou o processo de regulamentação da cannabis medicinal no Brasil.
O que o caso de Anny demonstrou não era novidade para a ciência. Era novidade para o sistema de saúde, para as famílias e para a opinião pública.
Por que a epilepsia tem o maior nível de evidência
Entre todas as condições tratadas com cannabis medicinal, a epilepsia refratária é a que possui o nível de evidência mais alto. Não por acaso — é também a condição que mais mobilizou pesquisa sistemática nas últimas duas décadas.
O ponto culminante dessa trajetória foi a aprovação, pelo FDA americano, do Epidiolex — uma formulação farmacêutica de CBD de alta pureza — em 2018. Essa foi a primeira vez que um derivado de cannabis recebeu aprovação formal de uma agência regulatória de primeiro mundo para uso medicinal.
A aprovação foi específica para dois tipos de epilepsia:
Síndrome de Dravet: Epilepsia geneticamente determinada, de início na infância, caracterizada por convulsões prolongadas e frequentes que respondem pouco ou nada aos anticonvulsivantes convencionais. O ensaio clínico que embasou a aprovação mostrou redução de 39% na frequência de convulsões com CBD, versus 13% no grupo placebo.
Síndrome de Lennox-Gastaut: Epilepsia grave com múltiplos tipos de crises, retardo do desenvolvimento e resistência a tratamentos. Os estudos mostraram redução de 37-42% nas crises de queda — as mais incapacitantes e perigosas dessa síndrome.
Além dessas duas síndromes, o CBD demonstra benefícios em outros tipos de epilepsia refratária, incluindo o complexo de esclerose tuberosa — outra indicação aprovada pelo FDA.
Os múltiplos mecanismos pelos quais o CBD reduz crises — sem causar sedação
A epilepsia é, em essência, um problema de excitabilidade neuronal excessiva — neurônios disparando de forma sincronizada e descontrolada, produzindo as crises.
O CBD atua sobre esse problema por múltiplos mecanismos — o que o torna diferente dos anticonvulsivantes convencionais, que geralmente agem em apenas uma via:
Modulação GABAérgica: O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do cérebro — ele "acalma" os neurônios. O CBD potencializa a ação do GABA de forma indireta, aumentando o freio inibitório sobre a hiperexcitabilidade.
Bloqueio de canais iônicos: O CBD modula canais de sódio e potássio nas membranas neuronais, reduzindo a velocidade com que os neurônios disparam e se propagam sinais excitatórios.
Inibição da GPR55: Este receptor, quando ativado, facilita convulsões. O CBD é um antagonista da GPR55 — ou seja, bloqueia esse facilitador de crises.
Modulação do cálcio intracelular: Altas concentrações de cálcio dentro dos neurônios são parte do mecanismo de morte celular durante crises prolongadas. O CBD reduz esse influxo de cálcio, oferecendo neuroproteção adicional.
A combinação desses mecanismos distintos explica por que o CBD funciona em casos onde múltiplos anticonvulsivantes falharam — ele não está "tentando mais do mesmo", está agindo por caminhos diferentes.
Interação com anticonvulsivantes: o que monitorar
Um aspecto clinicamente crítico do uso de CBD na epilepsia é a interação com outros anticonvulsivantes — especialmente o clobazam.
O CBD inibe a enzima hepática que metaboliza o clobazam, fazendo com que os níveis desse medicamento no sangue aumentem. Na prática, isso pode significar:
Efeito positivo: potencialização do efeito anticonvulsivante — pacientes podem precisar de menos clobazam para o mesmo controle de crises.
Efeito negativo se não monitorado: sedação excessiva, tontura e ataxia — que podem ser confundidos com piora neurológica se o médico não estiver atento.
A solução é monitoramento regular dos níveis plasmáticos e ajuste gradual das doses do anticonvulsivante em paralelo à titulação do CBD.
O ácido valproico também merece atenção: a combinação com CBD pode elevar enzimas hepáticas (TGO/TGP), exigindo monitoramento laboratorial periódico.
E o THC? O papel na epilepsia
Na maioria dos protocolos para epilepsia, especialmente pediátrica, o foco é no CBD com THC mínimo ou zero.
A razão é que o THC pode ter efeitos paradoxais no limiar convulsivante — dependendo da dose e do perfil genético do paciente, pode tanto reduzir quanto aumentar a susceptibilidade a crises. Para populações com cérebros em desenvolvimento ou com alta sensibilidade, o risco não compensa sem indicação específica.
Em adultos com epilepsia refratária, alguns estudos sugerem que traços de THC (proporções 50:1 ou superiores de CBD:THC) podem contribuir para o efeito anticonvulsivante via efeito entourage — sem produzir efeitos psicoativos significativos. Mas essa decisão é sempre individualizada.
Como funciona no Brasil: o acesso ao CBD para epilepsia
A ANVISA permite a prescrição de produtos à base de CBD para epilepsia por qualquer médico registrado no CFM — neurologistas, pediatras, clínicos gerais com conhecimento na área.
O fluxo mais comum para famílias brasileiras:
- Diagnóstico confirmado de epilepsia refratária (geralmente após falha de dois ou mais anticonvulsivantes adequadamente dosados)
- Consulta com médico especializado em cannabis medicinal — para avaliação das interações com os anticonvulsivantes em uso e definição do protocolo
- Prescrição — receita de controle especial (branca, duas vias) para produtos com THC ≤0,2%
- Aquisição em farmácia magistral ou importador autorizado pela ANVISA
- Acompanhamento — reavaliação nas primeiras semanas para ajuste de dose e monitoramento de interações
O acompanhamento médico não termina na prescrição. A titulação do CBD em pacientes em uso de múltiplos anticonvulsivantes exige atenção contínua.
O que esperar — e o que não esperar
O que é realista esperar:
- Redução da frequência de crises (em estudos clínicos, média de 30-50% de redução)
- Redução da duração e da intensidade das crises que ainda ocorrem
- Melhora do sono e do comportamento entre as crises
- Possível redução gradual de outros anticonvulsivantes (sob supervisão)
O que não é garantido:
- Ausência completa de crises ("seizure freedom") — ocorre em uma minoria dos pacientes, mas não na maioria
- Resposta imediata — a titulação adequada pode levar semanas ou meses
- Funcionamento igual para todos os tipos de epilepsia — as evidências são mais sólidas para Dravet e Lennox-Gastaut
A honestidade nessa comunicação é parte do cuidado. Famílias que chegam com expectativas realistas colaboram melhor com o processo e identificam benefícios que famílias com expectativas mágicas não conseguem ver.
Leia também: O sistema endocanabinoide e o cérebro · A dose certa: protocolo individualizado · Interações com anticonvulsivantes
Dúvidas frequentes antes de agendar
Isso é legal no Brasil? Sim. A ANVISA regulamentou a prescrição de cannabis medicinal pela RDC 327/2019. Médicos habilitados prescrevem com total respaldo legal, e os produtos chegam via farmácia magistral ou importação autorizada pela própria ANVISA.
O tratamento vai me deixar alterado ou "chapado"? Não — quando feito corretamente. Protocolos terapêuticos usam doses precisamente tituladas, muito abaixo das que causam efeito psicoativo. A grande maioria dos pacientes mantém plena capacidade para trabalhar, dirigir e realizar suas atividades normais.
Preciso de encaminhamento do meu médico atual? Não é necessário. Qualquer médico habilitado pode prescrever após avaliação. A consulta na Universo AnandaMed é completa, online e atende pacientes em todo o Brasil.
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Este artigo tem caráter educativo e informativo. Não substitui avaliação neurológica. Todas as prescrições na Universo AnandaMed seguem regulamentação ANVISA/CFM vigente.
Referências científicas:
- Devinsky O, et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017.
- Thiele EA, et al. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome. Lancet. 2018.
- Gaston TE, et al. Interactions between cannabidiol and commonly used antiepileptic drugs. Epilepsia. 2017.
- ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC Nº 327/2019.


